Depoimento ao programa Diálogo ABERJE-Universidades

João J. A. Curvello | Comunicação Organizacional,Reflexões | sexta-feira, maio 1st, 2009

Comunicação interna em tempos de crise

João J. A. Curvello | Comunicação Organizacional,Reflexões | sexta-feira, maio 1st, 2009

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Esta entrevista foi concedida ao portal da Giornale Comunicação Empresarial:

Giornale – O momento é de crise financeira. Muitas empresas brasileiras estão demitindo e reduzindo custos. Muitas deixam de investir em comunicação interna. Qual é a sua opinião sobre isso?

Curvello – Todos os sinais sobre a crise econômico-financeira são também contraditórios. Alguns economistas têm dito que a situação brasileira, devido à nossa experiência em processos críticos, é mais favorável do que a de outros países. E que o aumento no número de demissões que temos visto agora seria mais uma ação preventiva, do que propriamente uma saída encontrada para “salvar”, pelo menos em termos financeiros, os balanços das empresas. É certo, porém, que setores baseados na exportação de bens para países que estão em situação mais vulnerável foram e ainda serão afetados pelo efeito sistêmico da crise. Outras empresas, principalmente as internacionais, têm adotado medidas lineares no mundo todo e os cortes de pessoas acabam aparecendo como uma solução para obter resultados rápidos, independentemente da situação local. E há, ainda, aquelas empresas que, na contramão dos discursos de responsabilidade social, e mesmo com o apoio público por meio de empréstimos e de incentivos fiscais, acabam por demitir grandes contingentes de funcionários e praticando o que já se esperava estar superado: a socialização dos prejuízos projetados e a privatização dos lucros realizados.

É essa visão de curto-prazo que vejo como problema, pois induz a tomadas de decisão limitadas pelo viés do momento, que apenas se baseiam na proteção ao risco. Nessas horas, cortam-se despesas e, principalmente, investimentos. Como as áreas financeiras, conceitualmente, incluem os esforços de comunicação como despesa, é previsível que venham a reduzir ou cortar o que consideram “não-essencial”. Mas, como desconhecem o real poder da comunicação, ao fazerem isso, acabam por estrangular a própria organização.

Para mim, em horas como essa é que se deveria investir mais na informação, nas negociações, no compartilhamento de idéias, de impressões e projeções, na construção da confiança entre as pessoas e entre essas e a empresa. Já virou lugar-comum dizer que as crises trazem oportunidades. No caso das empresas que aproveitam o momento para reforçar a coesão interna, essa expressão pode se transformar em realidade. Só um grupo coeso pode enfrentar qualquer turbulência.

Giornale – A comunicação é um fator para superar a crise?

Curvello – A comunicação para mim, e para muitos teóricos da sociedade e das organizações, é vital para a própria existência organizacional. Não há organizações sem comunicação.
As organizações são sistemas de comunicação, sistemas em permanente conversação interna e com todos os públicos de interesse. Mesmo em silêncio, emitem discursos impregnados de informação e de significação.

Penso a gestão da comunicação interna como conjunto de ações planejadas e pensadas estrategicamente e que a organização coordena com o objetivo de ouvir, informar, mobilizar, educar e manter coesão interna em torno de valores que precisam ser reconhecidos e compartilhados por todos e que podem contribuir para a construção de uma boa imagem pública. Por isso, não tenho a mínima dúvida de que a comunicação é, sim, essencial para a superação desta e de outras crises.

Para ilustrar, cito duas pesquisas que reforçam essa tese de que a comunicação interna pode ajudar a superar problemas. Uma, conduzida pelo Hay Group, concluiu que as empresas mais admiradas da revista Fortune aumentaram seu valor em 50% sobre seus concorrentes depois de instituir programas mais fortes de comunicação interna. Outro estudo, realizado pela McKinsey, em 2003, concluiu que 67% das vendas de bens de consumo está baseada no boca a boca, sugerindo como primordial o papel que os empregados podem exercer na concretização de vendas de produtos ou serviços nos seus círculos sociais e familiares.

Giornale – Fale sobe o que pensa sobre o colaborador como agente comunicador.

Curvello – Há mais de dez anos defendo a tese de que a principal colaboração de um profissional de comunicação nas organizações está em educar para a comunicação. Não no sentido restrito de que todos passem a dominar as técnicas, mas principalmente para que compreendam os processos comunicativos. E, compreendendo, contribuam – cada qual a seu modo – para o livre trânsito de informações, para o esclarecimento de dúvidas, para o cumprimento dos compromissos assumidos com colegas e com clientes, por exemplo.

Cada colaborador é, sim, protagonista do processo de comunicação de uma organização, pois cada ato, gesto, fala ou mesmo o seu silêncio transmite discursos que serão recebidos, processados e interpretados pelos públicos com que interagem.

Giornale – Se não há como investir, como reinventar a comunicação interna?

Curvello – Reinventar a comunicação, para mim, passa por pensá-la para além das mídias tradicionais. Passa por utilizar em toda sua capacidade as tecnologias que já estão aí disponíveis, como as que permitem montar redes sociais e comunidades de prática e de aprendizado. Passa, também, por incluir conteúdos sobre os processos de comunicação em cada curso ou treinamento da empresa. Passa por desenvolver e aperfeiçoar as competências conversacionais, principalmente a escuta dos anseios e desejos muitas vezes ocultos nas empresas. Passa compartilhar e explicar cada decisão tomada. Passa por dar sinais de que confiamos nas pessoas.

Giornale – O senhor tem exemplos de corporações que se destacam em relação à comunicação interna, apesar da crise financeira?

Curvello – Agora, no momento da crise, uma empresa que tem levado suas questões internas a público tem sido a Vale, que apesar de já ter demitido no final de 2008, parece ter adotado uma nova postura e investido na negociação com os sindicatos e no estabelecimento de acordos com vistas a não mais demitir. Esse caminho pode ser mais trabalhoso e complexo, mas me parece ser coerente com uma empresa que diz ter visão estratégica e de longo prazo.

Do ponto de vista das políticas de comunicação, há alguns anos a Gerdau, mesmo que de maneira discreta, vem se constituindo numa referência. Há outras empresas que têm procurado manter laços fortes com suas equipes de trabalho.

Giornale – Independente da crise, quais são os novos caminhos da comunicação interna?

Curvello – O primeiro passo é ter em mente que comunicação interna é um processo inerente à vida organizacional, que precisa ser fomentado diariamente e não só em situações de risco, conflito ou crise.

É preciso, ainda, superar preconceitos e medos infundados e criar bases de confiança, que permitam usar plenamente todo o potencial das tecnologias como intranet e redes sociais, por exemplo, sem as amarras que hoje ainda impomos ao livre trânsito de idéias, para que a interatividade ajude a fomentar a criatividade,. Além de investir no respeito à diversidade e à autonomia dos públicos internos.

É necessário derrubar alguns mitos desenvolvidos no campo da gestão, como o de que o sentido está nas palavras, ou que comunicação e informação são sinônimos, ou ainda que a comunicação não requer muito esforço, ou que é um produto que pode ser conduzido como qualquer outro ou ainda que bons oradores são bons comunicadores.

Ao contrário, uma comunicação interna eficaz é aquela que contribui para dar sentido à vida organizacional, que busca o equilíbrio entre as necessidades da organização e as de seus principais públicos e que mobiliza todos os segmentos de uma empresa para uma cultura de diálogo, inovação e participação.

Para que se efetive, repito aqui o que venho escrevendo e propagando há alguns anos, é necessário que os gestores permitam a todos conhecer a direção estratégica a partir de vínculos constantes entre objetivos de longo prazo e ações diárias. É preciso sensibilizar todos os segmentos para a importância de manter relações transparentes e honestas com os diversos públicos e disseminar a visão de que a comunicação é responsabilidade de todos, não só da área técnica ou de uma empresa prestadora de serviços especializados. E, principalmente, investir na educação para a comunicação, a colaboração e o compartilhamento de informações, em todos os níveis. Pois, mais do que persuasão e controle, comunicação é essencialmente diálogo, participação e compreensão.